Depois das prévias, o silêncio

Qua, 18/02/09
por Paulo Moreira Leite |
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A prévia do PSDB pode transformar-se na mais nova versão da célebre Batalha
de Itararé, aquela que não houve.

Ao declarar que está de acordo com a proposta de escolher o candidato presidencial do PSDB por uma prévia, José Serra deixa de ser alvo de ataques de Aécio Neves, que acusava os tucanos paulistas de quererem impor suas decisões ao conjunto do partido.

O problema é que acontece daqui para a frente. Serra continua convencido de que as prévias ajudam na divisão do partido e estimulam a rivalidade entre os dois concorrentes.  Seus aliados lembram a disputa interna de 2002, quando Tasso Jereissati questionou sua candidatura e depois apoiou Ciro Gomes, ajudando a derrubá-lo no Nordeste.

Numa postura que reflete o pensamento da maioria do partido, que quer vencer Lula e para isso quer entrar na campanha com o candidato com mais chance de vitória, o  presidente do PSDB, senador Sergio Guerra, também prefere um acordo — que evitaria um desgaste.

Aécio Neves continuará interessado nas prévias desde que fique convencido de que tem grandes chances de ganhar a disputa. Hoje, quando Serra tem um Ibope quase 300% superior ao de Aécio, a prévia seria a coroação do governador de São Paulo.

Mas esse mapa pode mudar nos próximos meses. Aécio pode crescer, pode construir um apoio que ainda não possui e ao menos em teoria, também pode mudar o jogo.

Para isso o governador de Minas Gerais precisa de tempo. Imagina-se no PSDB que a prévia possa ocorrer no final de 2009 ou no início de 2010.  Se a Aécio não consegujir mudar o jogo até lá, nem ele estará interessado em prévias.

Serra e Aécio na prévia

Ter, 17/02/09
por Paulo Moreira Leite |
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Prevê-se para breve o anúncio de que o PSDB irá realizar prévias para escolher seu candidato a presidente da República.

A prévia é uma antiga exigência do governador Aécio Neves, que fez da proposta um ponto de honra para aceitar um eventual resultado a favor da candidatura presidencial de José Serra. Leia notícia sobre o assunto no site de ÉPOCA.

O governador de São Paulo sempre desconfiou da proposta, convencido de prévias são mais úteis para  dividir um partido do que para aumentar a musculatura na campanha.

Na semana passada, Serra e Fernando Henrique Cardoso concluiram que era melhor concordar com a idéia. Ontem, os dois estiveram com o senador Sergio Guerra, que foi a São Paulo, a quem comunicaram a decisão.

Nos últimos dias, quando se consultava o Palácio dos Bandeirantes sobre a proposta de prévias, a resposta era que o governador nunca fora contra sua realização.  Já era um sinal de mudança.

A prévia, até agora, era uma idéia que ajudava Aécio Neves a fustigar o rival sem custos, deixando Serra numa posição antipática  – pois até o estatuto do PSDB admite que o partido pode realizar prévias para escolha de candidatos. Daqui para a frente, é Aécio que perde um argumento para se opor ao governador.

O conflito, agora, irá mudar de lugar. Aceita a prévia, a discussão envolve a data de sua realização e, é claro, em algum momento se vai discutir quem vota e quem não vota — debate que mobiliza a maioria dos políticos brasileiros desde os tempos em que eles disputavam eleições de centro acadêmico.

Pelas condições atuais de pressão e temperatura, Serra tem interesse numa escolha breve. Já Aécio prefere uma decisão mais tardia.

Mas política é como nuvem — um dia está de um jeito, no outro dia, fica diferente.
 

Chávez e as vacas magras

Ter, 17/02/09
por Paulo Moreira Leite |
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Hugo Chávez conquistou o direito eterno à reeleição numa situação especialmente favorável, quando o eleitorado olha para o passado e não encarou o futuro.

O passado reune uma década de triunfos do governo de Hugo Chávez. Conforme dados da Organização Mundial de Saúde, em dez anos a saúde pública conseguiu mais melhorias do que em várias décadas. As principais doenças e epidemias típicas de países desenvolvidos foram eliminadas. Quem anda pelos bairros populares de Caracas não pode deixar de reparar em antigas favelas que foram melhoradas, reformadas e hoje mostram um aspecto de bairros onde a vida continua pode mas pode ser mais decente.  Este é o progresso que fez de Chávez um candidato difícil de vencer, em eleições cujo grau de democracia e isenção é reconhecido pela unanimidade dos observadores internacionais.

A questão é que o petróleo pagava a conta desse progresso quando o barril se encontra em US$ 136 — e não em US$ 36. O petróleo também ajudava a esconder a incompetência de uma política econômica muito eficiente para distribuir a riqueza que sái do solo — mas incapaz de industrializar o país e de lançar as bases de uma economia com um grau menor de dependência em relação à exportação de uma única materia-prima. Os dez anos de poder de Hugo Chávez foram anos de partilha de riqueza, o que é correto num dos países mais desiguais do continente. Mas foi um período de desperdício em relação ao que se poderia acumular para o futuro — e este futuro chegou.

O princípio que autoriza reeleições pela eternidade não existe em nenhuma democracia do planeta. Isso porque se sabe que a alternancia nos cargos de governo é uma das condições para a preservação das liberdades e da independência entre os poderes. Depois que Franklin Roosevelt conquistou seu quarto mandado consecutivo, a Constituição americana foi reformada para definir que cada presidente só pudesse concorrer a dois mandatos consecutivos.

Chávez nem se dá mais ao trabalho de dizer até quando pretende ficar em Palácio. A pergunta é saber o que irá acontecer com as liberdades em vigor na Venezuela — quando chegar o momento de cobrar sacrifícios a população.   

O pessimismo ficou um pouco menor

Seg, 16/02/09
por Paulo Moreira Leite |
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Como está a crise no Brasil? Ninguém tem certezas. O fato é que mesmo quem não se coloca entre os 84% que aprovam o governo Lula está um pouco menos  pessimista.

Há uma semana, o colunista Celso Ming, no Estado de S. Paulo, escreveu que o pior já pode ter passado.

Luiz Fernando Sá, na Istoé Dinheiro, seguiu na mesma linha, apontando indícios na mesma direção — dezembro fora o fundo do poço, e agora a economia dava sinais de melhoria, o que dá a crise a forma de um V, com uma queda brusca seguida de uma recuperação. Um novo sinal nessa direção é o aumento do salário mínimo, com uma falta de 6,4% em relação a inflação, o que representa uma injeção de R$ 21 bilhões no mercado. 

Diz a Folha em editorial, hoje:
“Depois do tombo do final de 2008, a atividade econômica no Brasil dá sinais de que pode ter interrompido o recuo no início de 2009.”

No mesmo texto, o jornal escreve:
“Olhando o conjunto de dados, pode ficar a impressão de que o momento mais crítico ficou para trás. Seria, no entanto, uma conclusão precipitada e perigosa.”

Com um grau maior ou menor, todos estão cautelosos.  Não se cultiva mais a idéia do descolamento, mas se imagina que o país pode não enfrentar a crise em situação tão dramática como outros países.

Por que? São duas explicações. A primeira é que a crise virou recessão brava em país onde os bancos entraram em colapso. No Brasil, os bancos sofrem, mas é possível imaginar que o precipício esteja distante. É um efeito paradoxal dos juros altos.

Com o preço do dinheiro nas alturas, os bancos brasileiros não criaram as hipotecas de segunda linha, destinado a clientes com histórico de crédito ruim ou mesmo sem histórico  algum. Emprestando pouco, corrreram riscos menores, o que autoriza o ex-ministro Bresser Pereira a sustentar que os “grandes bancos” estão fora da zona de risco — ao contrário do que ocorre nos EUA, na Inglaterra, na Espanha…

A outra explicação também é paradoxal. O Brasil está menos exposto porque, contrariando a visão convencional da maioria absoluta dos gurus econômicos de seis meses atrás, ampliou a abertura da economia para o exterior — mas num grau inferior ao que muitos diziam ser indispensável. “Quem resistiu à globalização agora sái em vantagem,” escreveu Floyd Norris, no New York Times, num raciocínio dedicado a India, país ainda mais fechado do que o Brasil. ”Países que se abriram mais aos mercados de capital internacionais e que tentaram atrair empresas com regulamentos relativamente frouxos hoje estão sofrendo mais. A Islândia foi a economia-prodígio do mundo; hoje está falida.”

   

Um pai exemplar

Seg, 16/02/09
por Paulo Moreira Leite |
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Não sabemos, ainda, toda a verdade sobre a denuncia de agressão contra a advogada Paula Oliveira.

Mas já dá para apontar quem exibiu uma postura impecável no episódio: seu pai, Paulo Oliveira. Tudo se resume a uma declaração: “De qualquer maneira minha filha é uma vítima.”

Eu acho que papel de pai é esse. Paula pode ter sido vítima de neo-nazistas, como diz. Ou — como sugere a polícia de Zurique — pode ter sido vítima de si própria. Em qualquer caso, é uma força muito maior do que ela.

Nessa hora, todos precisam de um pai. Sorte de Paula, que tem um.

História italiana do PT é mais um mistério do caso Battisti

Seg, 16/02/09
por Paulo Moreira Leite |
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Há um mistério a ser decifrado na decisão de Tarso Genro dar refúgio político a Cesare Battisti. A decisão contrariou a longa história de fraternidade e favores mútuos que marca o convívio entre petistas brasileiros e comunistas italianos.

São laços mais profundos do que se imagina. Durante a ditadura militar, os sindicatos italianos eram grande fornecedores de ajuda — inclusive financeira — para as lideranças que colocaram a CUT de pé. Em anos recentes, o PT chegou a fazer campanha junto aos imigrantes italianos para que votassem nos candidatos do antigo partido comunista. Dirigentes do ex-PCI costumam comparecer em encontros petistas para fazer intervenções de cunho político, e tomam partido no debate interno. 

Com tantos antecedentes, a esquerda italiana esperava uma nova gentileza dos velhos companheiros do Brasil — o que ajuda a entender sua indignação, muito mais estridente do que a do próprio Sylvio Berlusconi.      

Você pagaria para ler jornal na internet? (2)

Seg, 16/02/09
por Paulo Moreira Leite |
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Sou e sempre fui a favor de cobrar pelo conteúdo de um jornal ou revista — seja na internet, seja em papel.

Jornais gratuitos são uma ilusão, pois sempre haverá alguém pagando para que o leitor leia aquela notícia e não outra.

Se o consumidor compra a comida, paga pelo vestuário e compra o ingresso do filme preferido, por que não iria pagar pelo jornal que lê?

Mas isso nos leva a uma outra discussão: será que a crise financeira dos jornais nasceu com a internet? Será que todos os leitores estão satisfeitos com a mídia e só não pagam pelo que lêem na internet porque as empresas de jornalismo se esqueceram de mandar a conta?

Acredito que o leitor paga e sempre pagará pelo conteúdo de um jornal na internet quando estiver convencido de que esse gasto vale à pena. Essa discussão é anterior à a crise atual dos jornais, que gerou a idéia de colocar uma espécie de taxímetro na internet, como sugere Walter Isaacson, ex-editor da Time americana, para quem as dificuldades de hoje tiveram início com a decisão de oferecer notícias de graça na rede. (Leia nota anterior).

Mas em 1995, quando muitas redações sequer haviam sido inteiramente informatizadas, assistia-se a um acelerado processo mundial de venda, compra e falência de jornais e revistas, motivado pela falta de público, pela falta de anuncios — ou pelas duas razões combinadas.

Num livro publicado na época, “Detonando a Notícia,” o jornalista James FAllows procurava tomar a temperatura das relações entre mídia e público nos Estados Unidos. Citando pesquisas diversas, dizia que os americanos “acreditam que a imprensa se tornou arrogante demais, cínica, voltada para escândalos e destrutiva.”

Fallows aponta para um problema no conteúdo e não na forma de venda. Descreve uma mídia fechada em si mesma, em suas metas de venda e de resultado final, sem disposição para discutir o sentido de seu trabalho.

Escreve que, diante de toda crítica, a resposta de repórteres e editores é dizer que suas publicações “apenas refletem o mundo como ele é. Criticar a cobertura de um veículo, dizem, é apenas ‘culpar o mensageiro’.” Outro argumento: “Diga que a cobertura é superficial ou sensacionalista e os repórteres irão responder que análises mais extensivas” acabariam aborrecendo um “público preguiçoso.”

Mais um argumento: se não exibirem fofocas de celebridades, nem apresentarem uma boa cobertura de assuntos policiais, irão perder público para a concorrência que fizer isso.

James Fallows admite que há “alguma verdade” nas queixas e explicações dos jornalistas.
Mas sua visão é que, ao dar prioridade a escândalos, ao tratar a vida pública como um show e transformar assuntos sérios em variações de um programa de entretenimento, a mídia entrou numa competição que só pode perder.

Há uma década e meia ele dizia que a “grande verdade é que a mídia se afastou de seus
“valores principais” e está cada vez mais longe da  “essencia do verdadeiro jornalismo, que é a busca de informações de utilidade para o público.”

Acho que a vida numa sociedade de massa não se alimenta apenas de notícias de interesse público. Informações que podem auxiliar na vida privada são importantes, da mesma forma que aquele tipo de orientação definido como auto-ajuda.

Num mundo de cidadãos atomizados, onde a vida ssocial é marcada pelo declínio do espaço público, outras realidades se impõem.

Mas eu acho que antes de ligar o taxímetro na internet, jornais e revistas devem reforçar seu conteúdo — caso contrário, não haverá razão para o leitor colocar a mão no bolso.

Você pagaria para ler jornal na internet? (1)

Seg, 16/02/09
por Paulo Moreira Leite |
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   Poucas vezes um artigo sobre a imprensa produziu tanta discussão entre os próprios jornalistas como o texto “Como salvar os jornais (e o jornalismo)”, dscrito por Walter Isaacson, ex-editor da revista Time, a semanal de maior circulação no planeta e
referência para tudo o que se faz no mundo inteiro, inclusive no Brasil.
Isaacson reune dois dados contraditórios. De um lado, diz, “os jornais tem mais leitores do que nunca. O seu conteúdo, assim como o das revistas de notícias e de outros produtores do jornalismo radicional, é mais popular do que jamais foi –até mesmo (na verdade especialmente) entre o público jovem.”

Por outro lado, nos últimos meses “a crise no jornalismo atingiu proporções de derretimento. Agora é possivel contemplar num futuro próximo uma época em que algumas grandes cidades não terão mais seu próprio jornal e as revistas e redes de notícia
empregarão apenas um punhado de repórteres.”

A explicação de Isaacson é o modelo de negócio adotado pelas empresas de comunicação em função da internet: oferecer notícias de graça, em vez de cobrar por elas. “As organizações jornalísticas estão distribuindo alegremente suas notícias.”
Citando pesquisas americanas, ele diz que no ano passado ocorreu uma virada marcante: “as notícias gratuitas disponíveis na internet foram mais procuradas do que os jornais e revistas que publicavam o mesmo conteúdo. Quem pode se espantar com isso? Até eu deixei de assinar o New York Times porrque se o jornal não acha justo cobrar pelo
acesso a seu conteúdo, eu me sentiria um tolo pagando por ele.”

A idéia, sugere Isaacson, é a cobrar pela informação, criando um sistema de micropagamentos pela internet. Com alguma liberdade, poderíamos definir o sistema como uma espécie de taxímetro, onde os leitores seriam chamados a pagar quantias modestas — ele fala em algo equivalente a 20 centavos por um artigo ou 1 real pela edição completa de um jornal em determinado dia — sempre que tiverem interesse.

Ele está certíssimo.

O problema é que a maioria dos veículos não decidiu oferecer notícia de graça, na internet, porque seus executivos queriam sentir-se “moderninhos.” Todos sabiam que iriam perder dinheiro com isso.

O que se considerav é que não havia outra saída para tentar manter audiência num ambiente que funciona pelas leis escaradas da pirataria e do canibalismo, onde tudo se reproduz e nada se paga, sejam músicas, piadas, fotografias, pornografia ou jornalismo.

Não custa lembrar que uma das causas inconfessáveis do sucesso da internet reside
na imensa oferta desse trabalho não-pago.

A pergunta não é por que assinar a edição impressa de meu jornal preferido cessar seu
conteúdo, de graça, no site do jornal, mas: se eu cobro pelo meu conteúdo na internet, que vai querer pagar por ele? Como impedir que seja pirateado por um concorrente site no interior do Paquistão e fora de qualquer ação judicial?
Essa é a primeira pergunta. Há outra, na nota que virá logo depois.

“Maconha ajuda a aguentar a pressão”, diz leitor

Dom, 15/02/09
por Paulo Moreira Leite |
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O leitor Kais Ismael escreve para dizer que é a favor da discriminalização da maconha, conforme uma discussão que iniciada na semana passada, no Rio de Janeiro, com a prsesença de diversos intelectuais e políticos latino-americanos, entre eles o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Os argumentos de Kais Ismael:

“Por ser pai de 6 filhos, sou a favor da liberação da maconha. Não desejo que meus filhos se tornem maconheiros, mas não quero que eles tenham contato com traficantes, são bandidos da pior espécie.

Do jeito q está hoje, a própria sociedade está empurrando os seus cidadãos para a criminalidade em vez de ajudá-los.

Com a liberação da maconha, agricultores do nordeste brasileiro terão mais uma fonte de renda, o governo irá arrecadar mais impostos, a maioria da bandidagem irá quebrar financeiramente, haverá menos corrupção na polícia e certamente o número de usuários irá diminuir por não ser mais proibido.

Enquanto drogas fortíssimas como álcool estiverem liberadas, acho uma tremenda hipocrisia criticar essa idéia.

É importante lembrar que muitos usuários de maconha fazem da erva uma espécie de tratamento psicológico quando não tem recursos para buscar atendimento profissional e seus devidos medicamentos. Há pessoas que chegam a gastar mais de R$ 500,00 mensais com anti-depressivos enquanto que o usuário não chega a gastar mais do que R$ 200,00 mensais. A maconha para essas pessoas não cura, mas ajuda a aguentar a pressão do sistema.”

Estes argumentos são respeitáveis  e ajudam um debate necessário. Concordo que a o tráfico alimenta a corrupção policial e pode jogar uma parcela da juventude nas mãos de criminosos. São argumentos a favor da liberação. Mas outros argumentos são exageradamente otimistas. Dizer que a maconha irá criar fontes de renda para agricultores do Nordeste é colocar o carro na frente de uma boiada inteira.

Caso ela venha a ser legalizada, o que não sabemos quando e se irá ocorrer, será ainda necessário definir como será seu plantio, aonde, em quais condições, envolvendo qual tipo de agricultor-fazendeiro, em qual propriedade. Será que os ex-traficantes não vão tomar conta do negócio? Também é preciso descartar uma noção ingenua — a de que a liberação da maconha irá diminuir o consumo. Essa visão psicanalítica do problema não tem base na realidade. Embora muitas pessoas tenham uma atração natural pelo que é proibido, a liberação da maconha iria criar um regime de maior tolerância, com mais oferta, mais acessível.  A maconha se tornaria mais barata e acessível.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a liberação do álcool não diminue o consumo. Ajuda a manter uma industria poderosa, que promove campanhas publicitárias imensas, muitas dirigidas a criar dependentes entre a juventude.

Uma história cada vez mais complicada

Dom, 15/02/09
por Paulo Moreira Leite |
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Por que duvidar de Paula Oliveira, a advogada que denunciou ter sido torturada por tres neo-nazistas na Suiça?

Não há motivo, garantem vários colegas da Faculdade de Direito, no Recife, que escrevem ao blogue, para solidarizar-se com ela, como se pode ler em notas anteriores.

O problema é que há uma investigação em curso e, até agora nada do que Paula Oliveira alegou em seu depoimento pode se demonstrado.

O pai não consegue encontrar os exames que poderiam dar esclarecimentos sobre a gravidez. Uma saída seria ouvir a médica que atendeu a filha, vítima de uma gravidez de risco.

Impossível. Descobre-se agora que nem seu nome pode ser fornecido à polícia porque é uma imigrante de origem portuguesa, vive em situação irregular no país — e poderia prejudicar-se.

O noivo de Paula, que prestou depoimento a polícia, só fala alemão. O pai, que só fala inglês, conversou com ele. Os dois se encontraram antes que o noivo deixasse a casa onde reside, para mudar-se para a companhia de parentes.

A conversa poderia ter sido mais produtiva se ambos tivessem o auxílio de um intérprete. Mas, embora estivessem nas cercanias de Zurique, não se usou os serviços de um profissional com essa especialização, que poderia ter ajudado a familia a esclarecer diversos detalhes sobre a vida de Paula nos últimos dias.

Num diálogo precário, o pai da advogada soube que ela andava com receio de ser agredida por militantes neo-nazistas.

A Suiça registrou um aumento de 30% nos ataques de natureza racista entre 2006 e 2007. Um partido que eecebeu 29% dos votos nas últimas eleições faz campanhas discriminatórias contra estrangeiros, sugerindo, em cartazes, que devem ser expulsos a
coices.

Não se trata, portanto, de uma terra especialmente simpática em relação a estrangeiros.

Mas a história é mais complicada. Como se sabe desde que a polícia disse que Paula não estava grávida no dia em que disse ter sofrido o ataque, alguém está mentindo.

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