Entrevista com os escritores caboverdianos Corsino Fortes e Tomé Varela: quando a Literatura anda de mãos dadas com a Educação

O escritor e diplomata caboverdiano Corsino Fortes

O escritor e diplomata caboverdiano Corsino Fortes

De passagem por Brasília, os escritores Corsino Fortes e Tomé Varela da Silva deram entrevista à Revista Nós Fora dos Eixos sobre o panorama atual da literatura caboverdiana. Corsino António Fortes nasceu na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, em 1933. Formou-se em Direito (em Lisboa), fez parte de alguns governos de Cabo Verde e foi embaixador em Lisboa. De 2003 a 2006, foi Presidente da Associação dos Escritores de Cabo Verde. Tem vários livros publicados, entre os quais “Pão e Fonema” e “Árvore e Tambor”. O poeta é detentor de uma obra considerada inovadora e de valor singular para a trajetória cultural de Cabo Verde, que expressa uma nova consciência da realidade caboverdiana e uma nova leitura da própria tradição cultural do Arquipélago. Já Tomé Varela da Silva é natural de São Lourenço dos Órgãos, 55 anos, é licenciado em filosofia e é técnico do Instituto de Investigação e Patrimônio Cultural. Sua bibliografia conta com seis obras de poesia e outras tantas sobre tradições orais, incluindo livros sobre as cantadeiras Nácia Gomi, Guida Mendi e Bibinha Cabral. Tomé Varela da Silva tem ainda um livro de ficção, “Natal y kontus”, publicado 1988, pelo instituto Caboverdiano do Livro. Abaixo a entrevista cedida pelos autores caboverdianos no quando de suas passagens pela Thesaurus Editora de Brasília, no final de novembro de 2008.

Nós Fora dos Eixos - A princípio a pergunta é: o que traz os escritores Corsino Fortes e Tomé Varela ao Brasil?

Corsino – Bom, a nossa relação com o Brasil é amistosa, é de muita amizade, temos certa afetividade de longa data em relação ao Brasil. Desde estudante meu professor emprestava-me livros de poetas brasileiros e nós começamos a ter esse contato com o Brasil. E sempre que há fomento à literatura no Brasil e somos convidados, normalmente os poetas, os pesquisadores e cientistas caboverdianos, só em circunstâncias muito especiais, é que não virá ao Brasil. Então nossa presença é a confirmação do convite do embaixador de Cabo Verde, que também é um historiador, um homem de cultura e da Universidade de São Paulo, através da professora Simone Caputo para falar sobre a literatura caboverdiana. Tivemos uma intervenção na Universidade de São Paulo e na Universidade de Brasília e no Senado Federal. Lá falamos com o senador Marco Maciel e falamos sobre a formação da sociedade caboverdiana, da superação de suas dificuldades, na identificação dos elementos que compõem, até certo ponto, a estrutura dessa comunidade caboverdiana e dos desafios. O povo caboverdiano tem enfrentado uma batalha para se auto-afirmar.

Nós Fora dos Eixos - Tomé Varela nessas andanças e intervenções pelo Brasil você tem percebido interesse ou mesmo curiosidade pela literatura caboverdiana por parte dos brasileiros?

O escritor e pesquisador Tomé Varela da Silva

O escritor e pesquisador Tomé Varela da Silva

Tomé Varela - Eu creio que esse interesse exista e já de alguns anos pra cá. Acredito também que está se abrindo um leque de interesses à volta da cultura e da literatura caboverdiana e isso se têm dado com muita dedicação, energia e muito amor, principalmente da professora Simone Caputo, aliás, ela está coordenando uma conferência internacional que vai dialogar com a USP, a partir do último dia 25/11 em que vem muita gente de fora. Nós estamos cá, um bocadinho antecipados logicamente porque o sr. embaixador  nos pediu para compartilhar Cabo Verde com o Brasil, um país irmão, que sempre nos esteve próximo. Agora o interesse pela literatura caboverdiana, principalmente com ajuda da professora Simone, que neste momento está com 10 orientandos, tanto em mestrado como em doutorado, e todos à volta da literatura e da cultura caboverdiana. Eu suponho até que o interesse sobre a literatura de Cabo Verde está se processando muito rápido e, sobretudo através dessa grande senhora que é a professora Simone Caputo Gomes.

Nós Fora dos Eixos - Então além desse trabalho da professora Simone Caputo Gomes, podemos dizer ainda que exista um processo no qual o Brasil está se voltando para Cabo Verde, está descobrindo a literatura caboverdiana agora, ou já existia esse intercâmbio antes?

Tomé Varela - Não. Já existia há muito, pelo menos desde a primeira metade do século passado. Na minha área, principalmente pela influência dos escritores nordestinos sobre a “Revista Claridade” que acabou por dar certa autonomia à literatura em Cabo Verde, portanto, desde essa altura… Eu acredito que na verdade esse contato se deu mais do lado de lá pra cá. Agora com esse interesse grande que está desabrochando não só em nível literário, mas também cultural que está crescendo do Brasil para Cabo Verde e isso se dá até como porta de entrada em nosso continente africano. Cabo Verde está a 3h30 de Fortaleza e há relações muito fortes com o estado do Ceará, semanalmente temos vôos que ligam Cabo Verde ao Ceará e nós estamos também às portas do continente africano e se está a estudar essa possibilidade que existe e é grande de Cabo Verde servir de porta de entrada ao Brasil no continente africano.

Nós Fora dos Eixos - Corsino você é um dos grandes ícones da literatura caboverdiana, oxalá o principal representante vivo da literatura e da poesia caboverdiana, o que o habilita a nos falar como está o panorama da literatura caboverdiana?

Para o escritor Corsino Fortes a literatura de Cabo Verde se encontra em "boa saúde"

Para o escritor Corsino Fortes a literatura de Cabo Verde se encontra em

Corsino Fortes - Posso dizer que a literatura caboverdiana – o Tomé Varela podia dizer melhor que eu isso, afinal ele é um investigador e tem acompanhado toda essa problemática… – mas podemos dizer que lá é utilizado até uma expressão muito comum que é afirmar que a literatura está de boa saúde. Nós temos de fato uma atividade bastante grande, atividades no campo da poesia, do conto, da crônica, do romance. Verifica-se que há jovens nossos que são estudantes em Portugal e que estão fazendo um trabalho extraordinário, eu mencionarei aqui o nome de José Luís Tavares, um jovem poeta que nós todos, como direi, temos grande esperança nele e que tem uma capacidade produtiva excelente, não só em quantidade, mas também em qualidade. Nós temos também uma atividade ensaística digna de ser registrada, nós podíamos falar também do jovem Zé Luís de Cofa Almada, mas há também uma expressão em que a massa crítica caboverdiana aumentou de volume graças à massificação do ensino. Os caboverdianos ao fazer suas teses de mestrado, as suas teses de doutoramento e que se debruçam sobre a nossa realidade para dizer quem nós somos, não no sentido de ouvir dos outros, o que nós seríamos, etc, mas sim, numa busca da própria identidade, o que acabou se tornando um fenômeno muito interessante na caboverdianidade, que é a imigração. É também um aspecto muito importante, os laços comunicantes entre Brasil e Cabo Verde, foi os protocolos assinados, em que o governo de Cabo Verde e os vários governos do Brasil deu abertura e lugares nas universidades, quer dizer os alunos caboverdianos não pagam mensalidades, e as famílias custeiam a estadia aqui. Com isso nós temos tido centenas e centenas de alunos a formarem-se nos vários cursos: medicina, direito, economia, etc… e, no caso dá para se ver o que isso estabelece de ligação com essas centenas de alunos aqui no Brasil em quase todos os estados, formados aqui no Brasil, que estão a dar seu contributo em Cabo Verde. Isto aqui é uma forma de entrosamento cultural entre o Brasil e Cabo Verde.

Nós Fora dos Eixos - Então podemos assegurar que nesse momento existe uma prioridade para a educação em Cabo Verde?

Tomé Varela - Com a independência que aconteceu em 1935, educação e saúde passaram a ocupar o primeiro plano nas preocupações fundamentais do país. Esse primeiro plano atinge esses dois setores e conservaram isso até os dias de hoje e eu creio que isso ainda vai durar porque cedo se deram conta que os caboverdianos, nossos dirigentes, perceberam que o desenvolvimento só pode ser ter como suporte sério e duradouro se priorizarmos essas duas vertentes: a saúde e a educação. Por isso temos nas diversas áreas as pessoas que se formam e voltam para Cabo Verde para fazer crescer o país e isto não é por acaso que Cabo Verde hoje, entre os países africanos, do ponto de vista da natureza é um dos países mais pobres da África, entretanto, estranhamente, entrou já no grupo dos países de desenvolvimento médio, quer dizer que o grosso da África está todo em desenvolvimento, ou seja, no nível dos países desenvolvidos, e Cabo Verde por esforço próprio, e também com muita humildade e o apoio da comunidade internacional, devido à seriedade na aplicação dos recursos recebidos de fora, tanto humanos como financeiros. Isto porque, a princípio tínhamos muita gente como mero cooperante, no plano da educação e da saúde. Hoje os cooperantes são resíduos, em Cabo Verde, essa situação mudou e já temos gentes capazes de levar o país pra frente, principalmente pelo nível de massa crítica que se desenvolveu a partir de então, o que nos deixa num patamar razoável em relação ao futuro. Daí que por tudo isso que penso que a educação foi a pedra basilar de todo desenvolvimento de Cabo Verde ao mesmo nível que a saúde, tanto no sentido de cuidar da saúde da população, mas contudo na intenção de formar gente para cuidar da saúde de todos nós. Portanto creio que foi um investimento bem pensado e bem cozinhado e que tinha que dar certo, porque antes da independência o problema da educação e da saúde, esses dois setores estavam num estágio muito baixo, para se ter uma base, no campo da educação estima-se que 75% a 80% de analfabetos no quando da independência e isso foi há pouco tempo, pouco mais de 30 anos. Hoje essa percentagem baixou para 10% e isso em tão pouco tempo. O programa de educação de adultos foi uma coisa pegada desde o início com força, nas frentes de trabalho, nas ruas, nas escolas, à noite para os trabalhadores, foi um combate cerrado…

Nós Fora dos Eixos - Aproveitando aqui, Tomé, uma das características hoje, pelo menos que é passada para nós brasileiros, vista até como referência de Cabo Verde, que como você mencionou é um país pequeno, um país com poucos recursos em termos naturais, mas que tem respondido à ajuda recebida investindo em educação, saúde, e uma coisa que chama muita atenção é justamente o combate à corrupção, ou seja, a sociedade caboverdiana gosta de evidenciar que a ajuda financeira recebida da comunidade internacional é bem empregada. Isso se dá pelo combate fervoroso à corrupção, a boa utilização das verbas em programas que evitam fraudes, a fiscalização e o acompanhamento da sociedade. Isso também é reflexo dos investimentos na Educação? É a Educação a melhor arma para eliminarmos este mal, que é a corrupção, da sociedade?

A educação e a saúde são prioridades em Cabo Verde, segundo Tomé Varela

A educação e a saúde são prioridades em Cabo Verde, segundo Tomé Varela

Tomé Varela - Bom eu diria que em Cabo Verde a corrupção existe, por que ela está em todos os lugares onde existe o homem, há sempre alguma tendência haver corrupção. Mas em Cabo Verde, isso sempre foi quase nula. Mesmo nos tempos coloniais a corrupção era praticamente nula, daí que há uma espécie de cultura da não corrupção em Cabo Verde. Hoje, que há outros interesses em jogo mesmo internacionais, o Estado tem que está mais atento para evitar a corrupção, obviamente atento ao branqueamento de capitais, temos leis que cada vez mais estão sendo aperfeiçoadas, ainda que os criminosos arrumem maneiras de estar sempre à frente do Estado nessa luta. Em Cabo Verde a corrupção sempre foi baixa, de maneira que a corrupção sempre foi algo que nos amarfanhávamos e quando constatávamos isso fora, porque no país não, não é por acaso que todo tostão que é passado a Cabo Verde é realmente utilizado e os doadores quando vão lá ficam espantados como que com tão pouco é tão bem aplicado com resultados tão palpáveis, que isso faz com que se ganhe mais com outros contribuintes. Nós hoje com o orçamento do Estado recebemos ajuda de vários países que dão ao Estado e já não pedem o controle, pois sabem que nós estamos à altura de controlar e não vão lá fiscalizar. Portanto conhecem os resultados e isso tudo creio que não seja só pela educação, é uma espécie de qualquer coisa de natural do caboverdiano, que sempre conviveu com isso, mesmo nos tempos coloniais em que se viam muitas coisas más, mas que, em Cabo Verde sempre foi assim, a comunidade respeita tudo que é público e faz com que o público seja compartilhado por todos.

Revista Nós Fora dos Eixos - quem dera que essa moda pegasse aqui no Brasil, afinal nossos autores, por exemplo, o João Ubaldo Ribeiro, vive batendo na tecla da questão do “jeitinho brasileiro”, do qual ele é contrário, não só ele, mas muitos dos nossos escritores estão sempre a questionar tal comportamento. Em Cabo Verde os escritores têm essas preocupações?

Corsino Fortes - Eu dei um toque no João Ubaldo Ribeiro, porque neste ano mesmo, eu estive em Lisboa e fazia parte do juri que atribuiu o Prêmio Camões ao João Ubaldo Ribeiro, um escritor que é muito apreciado em Cabo Verde. Mas na linha que o nosso investigador Tomé Varela falou, eu dou-lhe uma experiência muito interessante: em Cabo Verde logo de início, quando nós seguimos em negociações e etc, hoje é 10% para o indivíduo e as pessoas ficavam admiradas quando nós mandávamos metido os 10% na conta, ou os 15% metido na conta a favor de Cabo Verde e as pessoas ficavam de fato admirados, e isso foi um grande triunfo nacional. Eu me lembro de eu mesmo como embaixador fui a ONU porque eles estavam admirados por que nós não distribuíamos as subvenções alimentares às pessoas. Então nós dissemos, somos um país de jovens e por isso não somos um país de miseráveis, então as subvenções alimentares que são fornecidas a Cabo Verde, essas subvenções são vendidas, transformada em dinheiro que servirão para financiar projetos de desenvolvimento e só uma pequena parte desses alimentos são distribuídos aos inválidos e aos idosos, mas a maior parte é transformada em dinheiro, que será aplicado em projetos. Então as pessoas vão trabalhar, ganhar seu salário e contribuir para o desenvolvimento. A coisa caiu também que eles (ONU) adotaram o princípio de que todas as subvenções dada a qualquer país pelo menos uma pequena parte devia seguir a linha de Cabo Verde. Um outro aspecto que nós devemos ressaltar aqui é a forma de Cabo Verde encarar seus problemas. É uma força também de imigração. A imigração caboverdiana sempre teve essa centelha… o caboverdiano quando imigra ele imigra com Cabo Verde no coração, ele trabalha e manda dinheiro pro banco ou em muitas vezes vem em carta. Nós sempre tivemos uma balança de negócios um tanto desequilibrada, mas a balança comercial sempre foi equilibrada em Cabo Verde por motivos dessas remessas dos caboverdianos, e a partir de certa altura essa remessa tinha uma certa força, hoje não, até porque a entrada da divisa do turismo excedeu as remessas dos nossos imigrantes, ou seja, hoje de fato o turismo ganhou uma dimensão maior em Cabo Verde.

Nós Fora dos Eixos - Qual a posição de Cabo Verde em relação ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa?

Tomé Varela - Eu fiz parte nos anos 80 de uma subcomissão que se criou em Cabo Verde para estudar essa proposta do Acordo Ortográfico. Houve um trabalho de vários pesquisadores e intelectuais à volta desse acordo e a conclusão a que se chegou lá é que valia a pena, pela repercussão que o acordo trazia e pela unificação na escrita, o que facilitaria, por exemplo, a troca de bens culturais tais como livros, revistas, e coisas assim… Por outro lado era também uma forma de nos aproximar mais enquanto usuários de língua portuguesa. Isso se deu bem cedo porque Cabo Verde foi um dos três primeiros países a ratificar o Acordo. Portanto da parte de Cabo Verde, das instituições oficiais caboverdianas isso nem se discute, é coisa que tem que ir para frente. Reconheço hoje, entretanto, que há custos enormes, que alguém terá que suportar estes custos para a virada, acredito que essa viragem é uma questão de tempo, se não se der hoje, dar-se-á amanhã. Mas estes custos deve está a atemorizar determinados setores e com relação ao avanço, ou seja, a oficialização do Acordo pelos oito países membros da CPLP, mas acredito, sobretudo agora, que constituímos uma comunidade onde urge termos uma definição clara a este respeito e o Brasil creio tem uma responsabilidade maior no número da população e no peso que tem dentro desta comunidade. O próprio peso político, peso econômico, peso cultural, por tudo isso creio que o Brasil tenha papel importante nessa luta.

Corsino Fortes - Nesta matéria também eu estive implicado na primeira reunião que se fez no Rio de Janeiro, foi em 1986, na Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, quem me acompanhou à época foi o atual ministro da Cultura de Cabo Verde, Manoel Veiga, ele, eu e o Tomé Varela podemos dizer que fomos os pioneiros do esforço de dar à nossa língua, a língua materna, a dignidade necessária. E nessa altura houve uma reunião muito importante de fato para podermos dizer que foi a primeira reunião para os países depois da independência de Angola, Moçambique, etc… Várias reuniões têm sido feitas sempre com esse propósito. Ontem nós ficamos bastante encorajados porque o filho do homem que podemos dizer que foi o pai, o mentor da criação da CPLP, José Aparecido, voltou a puxar pra si a resolução em relação a esse problema. Estou convicto que o fórum programado para este próximo ano vai ter uma influência muito grande para a ratificação do Acordo. Mas estou certo de que os dados foram lançados e esta comunidade dos oito países tem grande força e irá vencer.

Nós Fora dos Eixos - Agora saindo um pouquinho da língua, e voltando para a Literatura, gostaríamos que você falasse sobre sua obra, do seu mais recente trabalho, qual foi o tema abordado?

A literatura caboverdiana passou por um lapso logo após a independência, mas hoje está em plena atividade

A literatura caboverdiana passou por um lapso logo após a independência, mas hoje está em plena atividade

Corsino Fortes – Bom, nós podemos dizer que em Cabo Verde há uma atitude fecundante em toda literatura, é óbvio que os períodos de crise, quer dizer, os períodos antes da independência, em que você tem uma criatividade até mais fogosa, depois da independência muda-se de pedida e as obras levam mais tempo para ser consubstanciadas, mas não há dúvida nenhuma que nós temos uma atividade bastantes grandes poéticas, com poetas de bom calibre, vão aparecendo também prosadores romancistas, como dizia a pouco, há cronistas de teor político, cronistas também de teor romântico, assim como também cronistas investigativos. A Literatura caboverdiana tem ganhado certo respeito, certa afirmação dentro do mundo de língua portuguesa. Quanto ao aspecto da minha obra, direi que escrevi três livros que levei cerca de 40 anos para assim o fazer, até porque são obras de muita reflexão sobre a realidade de nossa terra. O primeiro livro chama-se “Pão e Fonema”, escrito antes da independência, onde toda a problemática da independência está focalizada ali; pão no sentido de ter direito ao alimento e “fonema” no sentido de ter direito à palavra. Depois então há um alargamento semântico desse título aí vem “Árvore e Tambor”, a árvore no sentido dos fatores de produção da nossa terra e tambor relacionando-se com a questão da comunicabilidade universal; e por fim o terceiro completando a trilogia, que é “Pedra do solo e substância” que nós podemos dizer que há uma certa influência entre os estudos de Cabo Verde e o Ceará, uma referência ao poeta João Cabral de Melo Neto, que toma a pedra, então todo o livro fala sobre a pedra de Cabo Verde, a pedra de identidade, a pedra que serve como estudo poético, no sentido da dimensão arquitetural, há um poema no início que fala da cesariana dos três continentes, que mostra por exemplo, poeticamente, como a tríade se fez entre os três continentes Europa, América e Africa. Então essa obra que se chama hoje, reunida à trilogia, “A Cabeça Calva de Deus”, uma metáfora das montanhas nuas de Cabo Verde, que tem o propósito de florir, pois na verdade estamos a florescer…

Nós Fora dos Eixos - Tomé você tem feito mais pesquisas no campo da antropologia, tem reunido e buscado valores etnográficos. Qual sua idéia, reunir todo esse material e apresentar em breve ao público?

Tomé Varela - A idéia primeira é salvaguardar, afinal as tradições orais vão se difundindo de boca em boca, de geração em geração e com isso há coisas que se ganham e há outras que se perdem. Então ao se fazer a recolha dessas tradições em primeira mão ainda não é bem um trabalho etnográfico, porque não é a discrição do que se recolhe, na verdade é mais recolher, por exemplo: contos, rimas, provérbios, advinhas, sentenças, acontecimentos sócio-culturais de uma determinada época, em determinada altura, acontecimentos naturais, mas narrados pelas pessoas com um enfoque humano ou desumano da questão, tudo isso é que pretendemos salvaguardar. No fundo é salvar a memória coletiva. O objetivo último é de, primeiramente disponibilizar esses documentos aos pesquisadores na área das ciências humanas, portanto o material recolhido pode servir ao antropólogo, ao sociólogo, até a um economista, a um lingüista naturalmente, serve para tudo isso. Agora no meu caso concreto eu tenho um objetivo último, vir a estudar a filosofia, a mentalidade do caboverdiano, que terá acesso a todo esse material, portanto no fundo é estudar a mentalidade nascente na cultura e a cultura de Cabo Verde. Isso é uma questão que eu penso chegar quando tivermos um corte realmente significativo e que nos permite tirar conclusões com maior segurança. Eu pretendo parar de recolher esse material em 2010, quando até lá acredito ter recolhido um material para fazer análise e as devidas interações.

Nós Fora dos Eixos - Para finalizar, no Brasil, a gente teve assim uma época na literatura em que se tinha um inimigo comum, que foi a Ditadura, então toda a poesia marginal e mesmo a poesia acadêmica, tudo tinha no fundo uma busca por uma expressão maior de liberdade, o que se podia dizer sem dúvida que era uma espécie de marca impregnada nos mais diversos autores, nas mais diversas regiões, e sempre a coisa versejava em cima dessa expressão de liberdade. Depois da abertura política, com o processo democrático do país, essa marca foi se diluindo, plurificando e hoje em dia, temos uma literatura fragmentada, multifuncional, mas que por outro lado não tem onde desaguar num lugar comum. Esse processo se deu também na literatura caboverdiana com a independência?

Corsino Fortes - Parece que este fenômeno é comum. Verificou-se no Brasil, em Portugal, como também em Cabo Verde. De fato quando há um inimigo comum, os escritores parecem comungar com uma mesma causa, embora tenha a repressão, os escritores têm um objetivo primordial que é criar uma massa crítica de revolta, de contestação. Quando isso desaparece verifica-se uma coisa, que são os escritores que já não tem mais esse objetivo e então a literatura ganha uma outra dimensão, muitas vezes há até uma paragem, há um lapso, mas o talento do escritor vai aparecer sempre, por exemplo, escritoras como a Fátima Bitencourt, que é uma senhora cronista e contista e que mistura os dois gêneros e coisa se consolida.
Novos tempos, novas idéias, novos problemas, e ela com isso vai investigar a realidade caboverdiana de uma forma muito especial, com certa ironia, etc…, ou seja, temos novos escritores como o poeta Vaguinho Rodrigues, o José Luís Tavares, que falam de esperança. Mas o fundamental é que esta poesia, embora não tenha aquele traço comum de identificação logo direta contra esse inimigo comum, nas suas bases traz também um germe de identificação da literatura caboverdiana. Pode ser que não tenha mais aquela coisa de tempos diferentes, mas de qualquer forma tem a luta pela reivindicação passa para um outro patamar, são os sindicatos, são as discussões do parlamento, podemos dizer que fogem a essa temática, e quando a situação é de crise é que a literatura se alarga, mas quando outras instituições se debruçam sobre esse tema desviam a atenção e a literatura acaba por ganhar outras dimensões. Mas no fundo no fundo são sempre identificadores e se vai sempre encontrar algo que nos identifique como caboverdianos.

Tomé Varela - a literatura caboverdiana parece-me que chegou a seguinte conclusão. Já não há uma preocupação com o dito não dito, mas sim uma preocupação universal, quer dizer que o escritor caboverdiano ultrapassou os limites do território para ser um escritor do mundo, ou seja, todo mundo passa a ser a matéria das pesquisas, e a situação universal passa a ser agora a sua preocupação. Isso talvez precisamente porque o inimigo comum que acabava por ser uma espécie de obsessão. Era preciso combater esse opressor e era preciso que o escritor fosse uma espécie de arma junto com os cidadãos. No caso, depois da independência, esse inimigo desapareceu e surgiu o inimigo interno, eu mesmo posso criar esse inimigo, então há uma outra visão. Houve de fato em Cabo Verde esse lapso, esse interregno, uma paragem, é como se o escritor passasse a estar aturdido pois não tinha mais onde se agarrar. Mas isso o fez sair à cata de outra motivação para continuar a escrever e aí ele abre-se ao mundo, até mesmo porque seu país está se abrindo ao mundo. Antes o país era fechado sobre si, e combatia-se a autoridade que não deixava a gente nem colocar a cara na janela, então o escritor tinha que reagir àquela opressão, agora nós estamos abertos ao mundo, então vamos dar as mãos a todos e creio que isso muda um bocadinho. Mas como quem escreve é o escritor, ele escreve com tudo que tem dentro, o seu passado, o seu presente e sua ambição de futuro. Agora já não é mais uma coisa fechada, uma luta nacional, mas sim uma questão de humanidade.

Nós Fora dos Eixos - a conversa está ótima mas infelizmente temos que encerrar. Agradeço a vinda de vocês à Thesaurus Editora, ao embaixador de Cabo Verde, que nos possibilitou essa conversa pra gente poder passar um pouco mais aos nossos leitores, um pouco da literatura caboverdiana…

Corsino Fortes - Nós agradecemos também essa fraternidade que sentimos quando estamos aqui no Brasil.

Tomé Varela - Eu me sinto gratificado por esta conversa porque creio também que é uma forma de, no Brasil, se ficar a conhecer um pouco mais desse país, que é um irmãozinho, mas que está sobretudo ligado, já que estamos todos no mesmo barco.




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Comentários

Gostei, apesar de gralhas que, por vezes, acabam distorcendo, de alguma forma, o conteúdo. Por outro lado, tratando-se de uma entrevista oral, torna-se compreensível a distorção de sons articulados e deficientemente pronunciados/captados. Porém, parece-me que o essencial das mensagens ficou, e bastante bem.

Tomé Varela
(T. V. da Silva)

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